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Terras do Amazonas: FIRME, VÁRZEA E IGAPÓS

Por Paulo Almeida Filho

16 de fevereiro de 2026 às 07:15 Compartilhe

 

Terras Firmes no Amazonas são as áreas da floresta amazônica que não são inundadas pelas cheias dos rios, caracterizadas por árvores de grande porte (como castanheira e cedro) com copas que formam um dossel denso, dificultando a luz solar no solo, criando um ambiente escuro, úmido e com alta biodiversidade, sendo o tipo de vegetação mais extenso e representativo da Amazônia, com solos profundos, mas geralmente pobres em nutrientes. “Florestas de terra firme são florestas que se desenvolvem em áreas que não estão sujeitas a inundações por estarem situadas em uma região mais elevada do relevo amazônico. Essa característica favorece a proliferação de árvores de grande porte, podendo alcançar até 60 metros de altura. Nesse aspecto vegetativo, as folhas das árvores se aglomeram, dificultando a penetração de luz solar no seu interior, por isso não desenvolvem grande quantidade de plantas de sub bosque. A floresta de terra firme é a vegetação principal, da qual oito habitats marginais se diferenciam em termos de composição de espécies, refletindo condições ambientais mais extremas. Essa floresta é a mais rica em espécies e ocupa a maior área geográfica, enquanto os habitats marginais, como campinarana, savana, igapó e várzea, têm composições de espécies distintas devido aos diferentes gradientes ambientais. Esses habitats marginais abrigam muitas espécies de árvores que não são encontradas na floresta de terra firme, mas muitas são comuns entre os diferentes tipos de vegetação marginal, como entre savana e campinarana. Esses habitats estão localizados em extremos ambientais, sugerindo estresse ecofisiológico, onde o substrato, e não o clima, desempenha o papel mais crucial na composição das comunidades arbóreas amazônicas” (Oliveira-Filho et al. 2021). Mais de 50% das regiões de terra firme na Amazônia brasileira ainda são pouco exploradas cientificamente. A lacuna de conhecimento sobre a biodiversidade nas Terras Baixas Amazônicas atinge 54,1%, o que é inferior ao observado nas zonas úmidas e ecossistemas aquáticos da região (Carvalho et al. 2023). Entretanto, existe uma quantidade significativa de espécies de plantas que são exclusivas das florestas de terra firme, aproximadamente 4.424 espécies. Esse número é muito maior em comparação com as espécies que a terra firme compartilha com outros tipos de vegetação, que se aproxima de 2.032 espécies. Além disso, as campinaranas abrigam uma alta proporção de espécies exclusivas, representando 42% do total desse tipo de vegetação. Em contrapartida, os outros sete tipos de vegetação têm uma baixa proporção de espécies restritas, variando de 6% em mosaicos costeiros e savanas a 25% nos tepuis. O número de espécies compartilhadas entre a floresta de terra firme, que possui o maior conjunto de espécies, e outros tipos de vegetação marginal é elevado. Entre os tipos de vegetação marginal, o número de espécies compartilhadas varia significativamente, desde 18 entre igapó e tepui, até 655 espécies compartilhadas entre igapó e várzeas (Oliveira-Filho et al. 2021). Em uma parcela de 1 hectare de floresta de terra firme, a 260 metros de altitude na Amazônia equatoriana, foram encontrados 1.561 indivíduos, distribuídos em 473 espécies, 187 gêneros e 54 famílias. Este é o maior número de espécies de árvores já registrado em uma amostra de floresta tropical no planeta (Valencia et al. 1994).

 

 

 

Características Principais:
Vegetação: Densa, com árvores muito altas (30-80m), cujas copas se tocam, formando um teto fechado. Luz e Umidade: Pouca luz chega ao chão, criando um ambiente úmido e escuro, com pouca
vegetação no sub-bosque. Biodiversidade: Alta, com muitos nichos ecológicos para diferentes espécies (animais e vegetais) que vivem no dossel ou no solo.
Solos: Geralmente Latossolos, profundos, mas com baixa fertilidade natural (pobres em fósforo).
Espécies Comuns: Castanheira-do-Pará, mogno, cedro, e diversas palmeiras.

TERRAS DE VÁRZEAS
As terras de várzea no Amazonas são planícies aluviais férteis, às margens dos rios, que inundam periodicamente, essenciais para a biodiversidade e para as populações ribeirinhas que praticam agricultura (arroz, feijão, mandioca), pesca e extrativismo, mas enfrentam desafios como desmatamento e alterações climáticas, necessitando de manejo sustentável, especialmente com estudos de solo e zoneamento agroecológico para o uso agrícola, conforme demonstram projetos de pesquisa e desenvolvimento na região. A Várzea Amazônica é uma área inundável da bacia amazônica, caracterizada por ecossistemas ricos em biodiversidade e solos férteis. Formada ao longo dos rios de água branca, como os Rios Amazonas/Solimões, Madeira e Purus. A várzea sofre inundações
periódicas causadas pelo transbordamento dos rios durante a estação das chuvas. Sua diversidade biológica e valor ecológico são de grande importância para as populações locais e para a manutenção dos ecossistemas amazônicos, contribuindo para a subsistência e para práticas culturais que são realizadas em harmonia com o ciclo de cheia e seca dos rios. As várzeas amazônicas são formadas por solos aluviais ricos em nutrientes como cálcio, magnésio e fósforo. A água barrenta dos rios que inundam essas áreas traz grande quantidade de sedimentos, dando origem à cor característica e fertilidade da várzea. Esses rios apresentam pH próximo ao neutro e alta condutividade elétrica. Devido à alternância entre os períodos de cheia e seca, a várzea é constantemente moldada pelo ciclo hidrológico amazônico, com inundações que aumentam ou reduzem a largura das várzeas ao longo dos anos. Este ecossistema abrange aproximadamente 300.000 km² na Bacia Amazônica. A várzea amazônica pode ser dividida em três tipos principais, definidos pela altura e duração da inundação: várzea alta, várzea baixa e chavascal. A várzea alta é alagada por
períodos mais curtos, menos de 50 dias por ano, e com altura de inundação inferior a 3 metros. Nessas áreas, a vegetação é florestal densa, com árvores que podem chegar a 20 metros. Já a várzea baixa fica inundada por períodos mais prolongados, ultrapassando 50 dias ao ano, e a altura da inundação pode variar de 3 a 7 metros. Por fim, o chavascal é uma formação composta por vegetação de pequeno porte, localizada em áreas que permanecem alagadas por longos períodos ao longo do ano. A flora da várzea apresenta uma diversidade adaptada às variações sazonais de
inundação. A vegetação da várzea é menos diversa em comparação com a floresta de terra firme, mas é rica em espécies adaptadas aos alagamentos. A várzea alta abriga espécies como a sumaúma (Ceiba pentandra), andiroba (Carapa guianensis) e assacu (Hura crepitans). Na várzea baixa, predominam espécies como o buriti (Mauritia flexuosa) e o açaizeiro (Euterpe oleracea). Essas plantas adaptaram-se aos alagamentos com características como raízes aéreas e estruturas que retêm oxigênio. A fauna da várzea é também diversificada, com várias espécies de peixes, aves e mamíferos que dependem do ciclo de cheia e seca para se alimentar e reproduzir. A várzea amazônica é central para as práticas de subsistência das populações ribeirinhas e indígenas, que desenvolveram conhecimentos tradicionais sobre o uso sustentável dos recursos naturais da região. Durante a seca, essas áreas são usadas para a agricultura, enquanto na estação das cheias, a pesca é predominante. Além disso, produtos florestais como madeira, frutos (açaí, buriti) e óleos vegetais (como o óleo de andiroba) são uma importante fonte de renda para essas comunidades, que praticam o manejo sustentável da floresta para conservar o ecossistema e garantir sua subsistência.

ADAPTAÇÃO ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NAS VÁRZEAS AMAZÔNICAS: As várzeas amazônicas são planícies situadas ao longo dos rios, caracterizadas por inundações periódicas. No transcorrer dos séculos, foram espaços privilegiados para a presença humana na Amazônia. As populações tradicionais concentravam-se nessas áreas, onde viviam de pesca, caça e produtos da floresta. Esse sistema entrou em crise a partir da década de 1960, quando planos nacionais para o desenvolvimento da Amazônia trouxeram outro tipo de migrante, principalmente do sul do país,
atraído pela oferta de terra vasta e barata. Essa nova realidade socioeconômica marginalizou formas mais sustentáveis de desenvolvimentos. As comunidades rurais remanescentes passaram a lutar pela sobrevivência em ecossistemas degradados, nos quais os ritmos sazonais tradicionais estão alterados, com a ocorrência cada vez mais frequente de enchentes e secas extremas.

 

 

 

 

TERRAS DE IGAPÓ
Terras de Igapó no Amazonas são florestas alagadas permanentemente ou por longos períodos pelas águas escuras e ácidas dos rios de água preta (como o Rio Negro), caracterizadas por solos arenosos pobres em nutrientes e vegetação especializada (como a vitória-régia e árvores adaptadas), cruciais para a fauna amazônica e que contrastam com as várzeas (rios de água branca, ricos em sedimentos) e terra firme (não inundada). Essas áreas, com o nome tupi que significa “rio de raízes”, abrigam ecossistemas únicos e importantes reservas de biodiversidade, como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Igapó-Açu.

Características Principais:
Inundação Constante: Ficam submersas por muitos meses, desenvolvendo uma vegetação única. Água Escura (Água Preta): Rica em substâncias húmicas, o que a torna ácida e com baixa visibilidade. Solo Pobre: Solos arenosos e pobres em nutrientes, contrastando com as várzeas. Vegetação Adaptada: Plantas como vitória-régia, cipós, e árvores de médio porte, com espécies como a macacarecuia. Biodiversidade Única: Abriga fauna adaptada, como tartarugas (que buscam alimento e se reproduzem ali) e aves como a cigana, além de mamíferos. Terminologia: “Igapó” (do tupi) significa “floresta de raízes” ou “rio de raízes”. Exemplos no Amazonas: Arquipélago de Mariuá (Rio Negro): Uma vasta área de igapó com cerca de 7 mil km² de florestas alagadas. Reserva de Desenvolvimento Sustentável Igapó-Açu: Uma importante unidade de conservação que protege esses ecossistemas. As terras de igapó são fundamentais para o ciclo hidrológico e a biodiversidade amazônica, apesar de sua aparente fragilidade e baixa diversidade de espécies em comparação com a terra firme, são ambientes vitais e únicos. Igapós ou matas de igapó são florestas alagadas da Amazônia com vegetação adaptada aos períodos de inundação. Essas áreas abrigam árvores de porte médio e uma rica biodiversidade, servindo como habitat para várias espécies de fauna e flora adaptadas ao ambiente alagado. As florestas pantanosas de água doce são encontradas em diversas zonas climáticas, desde as boreais, passando pelas temperadas e subtropicais até as tropicais. Na bacia do rio Amazonas, uma floresta sazonalmente inundada por água branca é conhecida como várzea, que é semelhante ao igapó em muitos aspectos; a principal diferença entre os dois habitats está no tipo de água que inunda a floresta.[1] O igapó é periodicamente inundada por rios de águas claras ou pretas que drenam formações geológicas antigas e com baixos a intermediários níveis de nutrientes e acidez. As florestas de igapó ocupam aproximadamente 180.000 km² da bacia amazônica e estão localizadas em áreas com baixa dinâmica geomorfológica originária do pré Cambriano dos Escudos Brasileiros e das Guianas. As florestas de igapó são um tipo de vegetação exclusiva que se desenvolve sobre solos arenosos e pobres em nutrientes, localizando-se em terrenos baixos ao longo de rios de águas claras e pretas na bacia amazônica. O Rio Negro é o principal representante dos rios de água preta se originando no Escudo das Guianas, enquanto os rios Tapajós, Xingu, Araguaia, Guaporé, Branco e Trombetas representam os rios de água clara, com suas nascentes situadas no Escudo Brasileiro e no Escudo das Guianas. Os rios de água preta apresentam águas escuras devido à presença de compostos fenólicos, que se formam a partir da decomposição lenta e anaeróbica do material vegetal. A vegetação nos igapós é submetida a longos períodos de inundação, sendo adaptada ao pulso de inundação previsível e de alta amplitude, podendo permanecer submersa por até 10 meses ao ano. Em comparação com as florestas de várzea, os igapós têm uma menor riqueza e diversidade filogenética de espécies possivelmente devido às condições ambientais extremas, onde as inundações frequentes limitam a diversificação de espécies. No entanto, essas florestas desempenham um papel crucial na ecologia da bacia amazônica. Elas ajudam a regular o ciclo hídrico local, contribuem para a purificação da água, oferecem habitat para uma variedade de espécies de peixes que atuam como dispersores de sementes, muitas das quais são endêmicas e adaptadas a essas condições específicas. Os igapós cobrem aproximadamente 300.000 km² da bacia amazônica, dos quais 119.000 km² correspondem a igapós de água preta. Estima-se que existam cerca de 600 espécies de árvores e 200 espécies de herbáceas aquáticas nos igapós. Muitas espécies de igapós são endêmicas e representativas (espécies chaves) nesses ambientes, como a espécie Aldina latifolia (Spruce ex Benth), que abriga muitas
orquídeas e bromélias em suas copas. A espécie Eschweilera tenuifolia (O. Berg) Miers, uma das mais antigas árvores de igapó,[ e embora seja considerada como resistente a longos períodos de inundação, tem sido severamente impactada pelas mudanças climáticas, hidrológicas (causadas pela criação de usinas hidrelétricas) e por incêndios florestais, correndo risco de extinção. A importância ecológica e estrutural dos igapós não pode ser subestimada; esses ambientes ajudam a manter o equilíbrio do ecossistema local e global, e a remoção da cobertura vegetal pode levar à perda irreparável de habitat e à redução da biodiversidade. As florestas de igapó são fundamentais para a manutenção dos ecossistemas amazônicos, e a proteção dessas áreas é crucial para preservar a riqueza biológica e os serviços ecológicos que elas oferecem.

 

 

 

 

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