O otimismo dos lojistas de Manaus derreteu pelo quarto mês consecutivo, na passagem de janeiro para fevereiro.
Em sintonia com os desarranjos na inflação, no dólar e nos juros, a piora veio principalmente da visão dos comerciantes sobre as condições atuais da economia, se refletindo sobre as expectativas em relação ao andamento do setor e nas intenções de contratar e investir. Os dados locais do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), medidos pela CNC, confirmam ainda que a capital acompanhou a média nacional nessa comparação, embora ainda apresente melhora anual.

Desânimo veio principalmente das empresas que vendem bens semiduráveis
Manaus marcou 115,4 pontos de confiança empresarial da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, sendo que valores acima de 100 pontos indicam satisfação. A queda de 2,8% frente a janeiro (118,8 pontos) foi a mais intensa dos últimos quatro meses. O desânimo veio principalmente das empresas que vendem bens semiduráveis (-5%) e que contabilizavam até 50 trabalhadores (-2,9%). Já a comparação com fevereiro de 2024 (113,9 pontos) mostra um tímido avanço de 1,4%. Na média brasileira (103,7 pontos), o Icec prosseguiu com viés negativo, ao tombar 2,1% entre um mês e outro, e ficar 5,4% abaixo do patamar de 12 meses atrás.
O novo recuo no Icec ocorreu no mesmo mês da quarta queda seguida do índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias), conforme a CNC. Mas, a vontade de comprar só arrefeceu na propensão a adquirir bens duráveis, refletindo perspectivas mais refratárias para o consumo e um entusiasmo pouco além da estabilidade quanto ao emprego e acesso ao crédito. Medida pela mesma entidade, a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) marcou elevação no número de famílias de Manaus embarreira das por contas a pagar (80,6% ou 546.280 delas) e também entre as negativadas (41,4% ou 277.218), em janeiro.
Contratações e investimentos
Oito dos nove componentes do Icec regrediram em Manaus, entre janeiro e fevereiro, sendo que três estão no patamar de insatisfação. A maior retração veio das condições atuais da economia (-7,6%), embora a percepção sobre o comércio (-4,6%) e a empresa (-0,8%) também tenha derretido. As expectativas para setor (-5%), economia (-3,3%) e negócios (-2,1%) também caíram, com reflexos nos investimentos (-2,9%) e nas contratações (-0,8%). A única melhora veio da situação dos estoques (+1,2%), que segue em nível de insatisfação. Diante de fevereiro de 2024, há avanço apenas em seis componentes (especialmente nas admissões de funcionários).
Com a nova queda de confiança dos comerciantes nas condições atuais da economia (74,3 pontos), a soma das avaliações que apontam que a situação “piorou muito” (33,1%) e “piorou pouco” (29%) supera o somatório de comerciantes que garantem que “melhorou um pouco” (33,1%) e “melhorou muito” (5,9%). Em contrapartida, as visões predominantes a respeito da situação presente do comércio (93,2 pontos) e da empresa (110,3 pontos) ainda são de melhoras mais amenas (35,4% e 41,4%, na ordem). Mesmo com os resultados negativos nas expectativas, a sondagem ainda mostra um panorama relativamente melhor para um futuro sempre adiado. O percentual de comerciantes de Manaus que espera que economia brasileira (140,1 pontos) “melhore muito” (43,9%)ou pelo menos “um pouco” (30,1%) ainda predomina sobre os grupos que esperam “pouca” (14,2%) ou “muita” (11,7%) piora. As projeções que pesam mais para o comércio (142,9 pontos) e para as empresas (156,6 pontos) também são de progressos mais significativos (42,5% e 50,5%).
A despeito da diminuição no subindicador de contratações de funcionários (122,2 pontos), e da falta de uma data comemorativa mais forte no curto prazo, a maioria dos lojistas locais apontou que seus quadros devem aumentar “um pouco” (50,8%), seguidos de longe pelos que avaliam que irá “reduzir um pouco” (27,3% pontos). A visão predominante para o investimento (107,9 pontos) ainda é a de que ele será “um pouco maior” (34,6%). Mesmo com a melhora, a insatisfação segue como regra na situação de estoques (91,4 pontos): apenas 55,7% consideram que está “adequado”; 25,9% dizem que está acima do ideal; e 17,2% apontam que está abaixo do desejável.
Juros e cautela
O presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, avaliou que a sazonalidade e a piora na conjuntura macro econômica contribuem para o menor otimismo. “Já é tradicional que o primeiro semestre é realmente mais fraco, e tivemos um volume muito grande de chuvas, que prejudica bastante o movimento no varejo. Outra coisa que nos preocupa é a inadimplência do consumidor, pois a alta da taxa Selic deflagrou novos reajustes nos juros bancários, e os cartões de crédito dispararam. O aumento de preços provocado pela seca de 2024 também tem de ser levado em consideração, assim como a possibilidade de temos outra estiagem severa”, listou.
Em comunicado à imprensa, a CNC revela que o Icec nacional também sofreu recuos em quase todos os seus subíndices, especialmente os relativos à economia. “A redução da confiança é coerente com o ambiente de juros elevados e de trajetória mais complexa do que no início de 2024. Esses fatores seguem impactando as decisões do empresariado e exigindo cautela na condução dos negócios nos próximos meses. É algo a ser acompanhado de perto, já que o otimismo do setor é essencial para impulsionar os investimentos e gerar crescimento”, alertou o presidente da CNC, José Roberto Tadros.
No mesmo texto, o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, detalha melhor esse cenário. “Os comerciantes têm sentido muito o impacto da Selic alta, com a tendência de novos aumentos. A prova disso é que na percepção atual do comércio, as atividades que englobam os bens de maior valor agregado (eletroeletrônicos, móveis e de corações, cine/foto/som, materiais de construção e veículos) caíram 5,3% em relação a janeiro porque são eles os mais afeta dos pela evolução dos juros”, finalizou.
Fonte: Jornal do Commercio/ Manaus 07.03.2025 / Caderno de Economia Pág. A5, (Por Marco Dassori).
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