A cultura de uma empresa não é formada apenas pelo que acontece dentro dela. Ela também se constrói a partir dos ambientes que seus líderes e colaboradores frequentam, das experiências que vivem, das pessoas com quem trocam conhecimento e, principalmente, daquilo que conseguem trazer de volta e transformar em ação.
Há conhecimentos que adquirimos nos livros, outros na experiência cotidiana dos negócios. Mas há um tipo de aprendizado que somente acontece quando decidimos sair do nosso ambiente habitual, conhecer outras realidades, observar diferentes modelos e permitir que novas ideias nos provoquem.
Foi essa reflexão que levei comigo após acompanhar a palestra de Denis Minev, empresário, diretor-presidente da Bemol, na Associação Comercial do Amazonas (ACA). Ao compartilhar experiências e iniciativas adotadas pela empresa, ele trouxe exemplos concretos de algo em que acredito: inovação também nasce da oportunidade de ver, experimentar, comparar e aprender.
Participar de eventos nacionais e internacionais, missões empresariais, feiras, congressos, conferências, visitas técnicas e imersões não deve ser entendido apenas como deslocamento ou viagem. São experiências de formação. Quando bem aproveitadas, ampliam conhecimento, aproximam o empresário de tendências, tecnologias e modelos de gestão e, principalmente, permitem enxergar o próprio negócio a partir de outra perspectiva.
Sair para enxergar diferente
Existe uma frase que traduz muito bem essa reflexão: “cada ponto de vista é a vista a partir de um ponto.”
Quando permanecemos sempre no mesmo lugar, convivendo com as mesmas referências e repetindo as mesmas rotinas, existe o risco de acreditarmos que aquela é a única maneira possível de fazer as coisas.
Uma missão empresarial rompe essa lógica.
Ao entrar em uma empresa de outro estado ou país, participar de uma grande feira internacional, conhecer um ecossistema de inovação ou simplesmente conversar com empresários que enfrentam desafios semelhantes aos nossos, começamos a fazer perguntas diferentes.
Por que eles fazem assim? O que poderíamos adaptar à nossa realidade? Que tecnologia já existe e ainda não conhecemos? Que processo poderíamos simplificar? Como será o nosso setor daqui a cinco ou dez anos?
É nesse movimento que a mente se abre para o futuro.
E não precisamos olhar apenas para fora do país. O Brasil e, especialmente, a própria Amazônia oferecem ambientes extraordinários de aprendizado. Conhecer diferentes realidades nacionais, percorrer nossos caminhos, compreender desafios logísticos e econômicos e observar de perto as particularidades de quem empreende na região também são formas poderosas de imersão.
Foi interessante, nesse sentido, ouvir Denis Minev falar tanto sobre a NVIDIA GTC (GPU Technology Conference) realizada na Califórnia quanto sobre a BR-319. São experiências completamente diferentes, mas capazes de produzir algo semelhante: ampliar o olhar.
Investir em pessoas também é inovar
Outro aspecto que me chamou a atenção foi perceber que essas experiências não estão restritas à alta direção.
Ao relatar iniciativas da Bemol, Denis mostrou a importância de permitir que profissionais de diferentes posições tenham contato com novos ambientes e novas tecnologias. A empresa mantém um escritório e um apartamento na China e proporciona experiências a colaboradores de diferentes áreas e níveis de atuação.
Isso faz sentido porque cada profissional observa a organização a partir do lugar que ocupa.
O olhar de um diretor é importante. O de um gerente também. Mas quem está diariamente na operação, atendendo clientes, movimentando produtos, acompanhando processos e enfrentando pequenos problemas que muitas vezes não chegam à alta gestão possui outros conhecimentos.
Quando esses diferentes olhares se encontram, a empresa aprende.
O mesmo princípio aparece no uso da inteligência artificial. Denis relatou o investimento em aplicativos pagos de IA disponibilizados aos colaboradores. Nem todos utilizaram as ferramentas com a mesma intensidade, mas uma parcela que soube explorá-las trouxe ideias e melhorias de processos capazes de gerar retorno para o negócio.
Isso é particularmente interessante porque democratiza a inovação.
Tecnologia não precisa permanecer concentrada na cúpula, em uma sala de diretoria ou restrita a especialistas. Quando colocamos novas ferramentas nas mãos das pessoas e lhes damos liberdade para experimentar, podemos descobrir talentos, soluções e possibilidades que dificilmente surgiriam de outra maneira.
Cultura organizacional também se constrói assim: quando aprender, experimentar, compartilhar e inovar deixam de ser possibilidades de poucos e passam a fazer parte do ambiente da empresa.
O retorno que não cabe apenas em uma planilha Outro exemplo apresentado foi o investimento em 2026 de R$ 1,2 milhões para levar 56 colaboradores da Bemol à principal conferência global de inteligência artificial e computação acelerada do planeta o NVIDIA GTC (GPU Technology Conference), realizado de 16 a 19 de março em San Jose, Califórnia/EUA, a e a estimativa de investimento para 2027 de R$ 2 milhões para levar 80 colaboradores. É um número expressivo. Mas talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente: quanto custa?
A pergunta é: o que esse investimento será capaz de produzir?
Conhecimento, referências, novas ideias, conexões, inovação, motivação e capital intelectual certamente fazem parte desse retorno.
Existe, porém, algo que dificilmente será medido.
Imagine um jovem profissional que nunca tenha viajado de avião e que, pelo reconhecimento do seu trabalho, tenha a oportunidade de atravessar fronteiras e conhecer um dos ambientes mais importantes de inovação e tecnologia do mundo.
Para ele, não será apenas uma viagem corporativa.
Será uma experiência de vida.
A pessoa poderá esquecer, com o passar dos anos, detalhes de uma palestra ou de uma visita técnica, mas dificilmente esquecerá a organização que acreditou em seu potencial e lhe proporcionou uma oportunidade que, talvez, naquele momento, estivesse muito distante de suas possibilidades.
E há um aspecto importante: não se trata simplesmente de “dar uma viagem”. Os colaboradores interessados apresentam suas razões, suas entregas e por que acreditam que devem participar. Há mérito, resultado e comprometimento envolvidos.
Portanto, existe também reconhecimento.
E reconhecimento gera pertencimento. Pertencimento gera comprometimento. Conhecimento amplia competências. Novas referências estimulam novas ideias.
O retorno aparece no capital intelectual que volta para dentro da organização.
E mesmo que, no futuro, aquele profissional siga outros caminhos, permanecerá em sua história a lembrança de quem lhe proporcionou aquela oportunidade.
Empresas também deixam legado nas pessoas.
Associativismo: ambientes onde ideias circulam
É justamente aqui que o associativismo empresarial ganha ainda mais relevância.
Associações comerciais, entidades representativas e organizações empresariais são espaços coletivos e privilegiados para circulação de conhecimento, além de pontes para a defesa dos interesses do setor produtivo. Quando promovem palestras, reuniões, conferências, simpósios, fóruns, feiras, encontros, missões empresariais, visitas técnicas e conexões entre empresários, cumprem uma função que vai muito além da representação institucional.
Criam ambientes de aprendizado.
Nem sempre precisamos atravessar o mundo para encontrar uma boa ideia. Às vezes, ela nasce em uma conversa depois de uma palestra. Em uma pergunta feita por outro empresário. Na experiência compartilhada por alguém que enfrentou um problema semelhante ao nosso. Em uma visita a uma empresa. Em uma conexão que começou em um encontro empresarial.
O associativismo nos lembra que ninguém precisa empreender sozinho.
Um exemplo concreto dessa força do associativismo foi compartilhada no próprio encontro. O presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Bruno Loureiro Pinheiro, compartilhou que a entidade pleiteou junto ao Sebrae Amazonas, uma missão empresarial internacional, em parceria com o Sistema OCB Amazonas – Organização das Cooperativas Brasileiras, presidido por Petrucio Pereira de Magalhães Júnior, que também acompanhava o encontro com Denis Minev, a realização de uma missão empresarial à China.
A iniciativa foi aprovada e acontecerá de 12 a 21 de outubro de 2026, incluindo a participação na Canton Fair 2026, em Guangzhou. É uma oportunidade concreta de acesso a novos mercados, fornecedores, tendências, inovação e conhecimento.
O Sebrae realiza missões empresariais nacionais e internacionais que aproximam empreendedores de diferentes ambientes de negócios e aprendizado. Por isso, é importante que nós, empresários, estejamos atentos a essas oportunidades e dispostos a participar. Muitas vezes, aquilo que pode transformar a nossa visão sobre o próprio negócio está justamente fora do ambiente em que estamos acostumados a atuar.
Quanto mais circulamos por esses ambientes, mais referências adquirimos. E quanto mais ampliada nossa visão, maior nossa capacidade de tomar decisões, antecipar movimentos e perceber oportunidades.
E você?
Ao ouvir sobre investimentos em tecnologia, inteligência artificial, missões internacionais, China, Califórnia, BR-319 e desenvolvimento de pessoas, uma inquietação permaneceu comigo.
E é a mesma pergunta que deixo a quem lê este artigo:
Como você está investindo os recursos que tem?
Não importa se você ou sua empresa dispõe de milhões ou de um orçamento muito menor. A reflexão não está no tamanho do investimento, mas na decisão de investir.
Quanto você tem investido em inovação?
Quanto você tem investido em tecnologia?
Quanto tem investido no capital humano dos seus colaboradores?
E, principalmente, quanto tem investido em si mesmo?
Quando foi a última vez que você participou de uma missão empresarial, conheceu uma empresa diferente da sua, visitou uma feira, participou de um congresso, entrou em um ambiente de inovação ou sentou-se à mesa com outros empresários simplesmente para ouvir, trocar experiências e aprender?
O empresário também precisa se permitir experimentar.
Precisa sair da rotina operacional por alguns momentos para observar o que está acontecendo além das paredes da própria empresa.
Porque quem lidera precisa enxergar o presente, mas também precisa desenvolver a capacidade de imaginar o que ainda está por vir.
Talvez por isso uma ideia tenha permanecido comigo durante toda a palestra. Não foi uma frase pronunciada literalmente por Denis Minev, mas a interpretação que fiz diante dos exemplos apresentados:
Vamos juntos?!
Juntos para conhecer. Juntos para experimentar. Juntos para vivenciar. Juntos para aprender.
Há algo de muito nobre nesse convite: a compreensão de que o conhecimento, quando compartilhado, não fortalece apenas quem o recebe, ele impulsiona todo o ambiente de negócios. É também a visão de quem não enxerga a concorrência como ameaça, mas como estímulo para inovar, evoluir e buscar, continuamente, fazer melhor.
Quando empresários e colaboradores ampliam seus horizontes, novas ideias chegam às empresas, transformam processos, geram oportunidades e movimentam o setor produtivo. O ganho deixa de ser individual e passa a contribuir para o desenvolvimento do Estado do Amazonas.
O convite para conhecer a Califórnia, percorrer a BR-319, observar cenários de futuro, experimentar novas tecnologias e proporcionar essas vivências a profissionais de diferentes níveis traduz uma convicção importante: quanto mais pessoas têm acesso ao conhecimento e a novas experiências, maior é a nossa capacidade coletiva de construir o futuro.
Grandes ideias nem sempre nascem de grandes estruturas. Muitas vezes, surgem da coragem de sair, observar, experimentar e voltar diferente.
Por isso, participar de uma missão, de uma imersão ou de um ambiente empresarial de troca não deve terminar quando retornamos para casa.
É justamente ali que começa a parte mais importante.
O que eu vi? O que eu ouvir? O que aprendi? O que posso adaptar? E o que começarei a fazer diferente amanhã?
Conhecimento que não circula se limita. Experiência que não provoca mudança vira apenas lembrança. Mas quando aquilo que aprendemos se transforma em ação, inovação e oportunidade para outras pessoas, o investimento ultrapassa o negócio.
Transforma pessoas, empresas e o ambiente empresarial ao nosso redor.
E talvez seja assim que se constrói uma cultura organizacional preparada para o futuro: indo aprendendo, compartilhando e fazendo juntos.
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